
Muitos pesquisadores da arte terapia concordam que ela surgiu, num sentido amplo, em tempos imemoriais, nas primeiras manifestações artísticas que a humanidade produziu. Essas pinturas e entalhes datam de aproximadamente 30.000 anos atrás, no período Paleolítico. São imagens de animais, contornos de mãos e formas abstratas das quais não se pode dizer com certeza sobre suas funções.
Ora, pesquisadores identificam até mesmo em chimpanzés e elefantes (que pintam com o pincel sustentado pela tromba) o prazer na produção artística – esses pesquisadores perceberam por exemplo, como os chimpanzés absorvidos pela pintura negligenciavam as refeições e o sexo. Essas pesquisas com animais sugerem uma predisposição para a prática artística entre animais.
Ainda num sentido amplo, podemos perceber como em diversos contextos históricos e geográficos a arte esteve relacionada com práticas de cura: ainda no Paleolítico encontramos estátuas de mulheres que podem ter sido deusas da fertilidade; no Egito os túmulos estavam cobertos de símbolos protetores; as mandalas de areia tibetanas; as máscaras rituais de diversos povos africanos e da Oceania; as pinturas em areia Navajo, na América do Norte; os maracás, tambores, danças, cantos e desenhos nos diversos povos que adotam o xamanismo, da Sibéria até a América do Sul; os ex-votos desde a Suméria e Grécia antiga até hoje em muitas igrejas católicas. São infinitos os exemplos nos quais encontramos manifestações artísticas aliadas a práticas curativas: a arte utilizada para curar é antiga e universal.
Apesar da arte como expressão do indivíduo ter surgido apenas durante o Romantismo, no século XVIII, a arte como símbolo remete às suas primeiras manifestações. A arte expressa o que é inefável, os sentimentos impossíveis de serem traduzidos em palavras e aí reside uma parte de seu poder.
Podemos identificar alguns precursores da arte terapia. Na França, o Marquês de Sade, entre 1803 e 1813, internado na casa de saúde de Charenton e sob a tutela do Abade de Coulmiers, escolhia peças de teatro que eram encenadas por atores profissionais, enfermeiros e loucos. O tratamento em Charenton incluía além do teatro “como meio curativo para a alienação do espírito” (Coulmiers), os bailes semanais, a música as representações de ópera e dança. Durante o século XIX difundiu-se também a idéia do trabalho como atividade curativa, muitas vezes na forma de atividades artísticas e artesanais.
O psiquiatra francês Paul-Max Simon estudou a produção artística de doentes mentais (1876, 1888), assim como o criminalista Cesare Lombroso (1887) que procurava identificar características na arte que revelassem propensões criminosas.
Freud no fim do século XIX e começo do século XX, em especial através do estudo sobre a obra de Leonardo da Vinci (1910), vê a produção artística profundamente relacionada com a biografia do artista e a revelação de experiências, conflitos, enfim, a revelação mundo interior do mesmo.
Jung, que foi discípulo de Freud, teria mesmo utilizado a produção artística em terapia, como fonte de imagens do inconsciente pessoal, e símbolos do inconsciente coletivo.
Movimentos artísticos como o Surrealismo e o Expressionismo vão buscar a arte como expressão mais direta do inconsciente (buscando deliberadamente a irrupção desses conteúdos, através da escrita automática, por exemplo) ou, no caso dos expressionistas, na arte como expressão direta dos sentimentos (como em Münch, Nolde) e a produção artística como resultado de uma verdade interior (como Kandinsky).
Outros precursores importantes foram Marcel Réja, psiquiatra francês, que escreveu a obra A arte dos loucos (1907); o psiquiatra suíço Morgenthaler que produziu a monografia Um doente mental como artista (1921) sobre Adolf Wölfli, internado em hospital psiquiátrico, mas que produziu milhares de desenhos e colagens, escritos em prosa e poesia, músicas; Hans Prinzhorn, psiquiatra suíço que também tinha formação em história da arte e escreveu a obra As obras plásticas de doentes mentais: uma contribuição para a psicologia e psicopatologia da configuração (1922), obra na qual demonstra seu entusiasmo estético diante dessas obras.
A partir dessas iniciativas na psiquiatria e na arte, da valorização da arte dos loucos e da compreensão de que a produção artística traz benefícios para o bem estar psíquico do ser vemos surgir a arte terapia como disciplina, em especial nos Estados Unidos com o trabalho de Margaret Naumburg que em 1941 desenvolveu um trabalho de “arte terapia dinamicamente orientada” num hospital psiquiátrico; a professora norte-americana Florence Cane, que descobriu que a arte tinha o poder de liberar não só a criatividade mas também saúde psíquica, e escreveu O artista em cada um de nós (1941); e a também professora Edith Kramer, que publicou Arte como terapia (1958).
A Arte Terapia vem então crescendo e ganhando espaço, amparada por associações como a Associação Americana de Arte Terapia (AATA) e associações internacionais como o International Networking Group (ING/AT).
No Brasil, destacam-se os trabalhos da psiquiatra junguiana Nise da Silveira, que fundou o Museu de imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro e o psiquiatra paulista Osório César, que desenvolveu seu trabalho no Hospital do Juqueri, em São Paulo, onde criou, em 1925, a Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri.
Texto elaborado por Luana Maribele Wedekin
